Os métodos e práticas de controle ideológico desenvolvidos pela Oban ressoam no presente. Huggins (1998, p. 176) localizou um documento que relata como a Oban trabalhou com campanhas de propaganda para envolver a população “em sua própria defesa contra o terrorismo da Guerra Revolucionária” por meio de meios tradicionais, como “imprensa, rádio, televisão, cinema, cartazes, boletins, panfletos e folhetos” e por meio do que eles chamavam de formas não convencionais, como o telefone. Por este meio, faziam “as chamadas ‘correntes de prosperidade’, de natureza místico-religiosa, adaptadas na forma de ‘Correntes de Segurança’, ‘Clínicas de Boatos’, cursos rápidos para estimular a imaginação popular, produções especiais de drama terrorista e a elaboração do ‘Decálogo de Segurança’”(Oban, 1969).
A proposta era que as pessoas aprendessem a identificar mensagens “subliminares” incorporando a “malícia policial” à população civil, transformando-a “virtualmente em uma polícia secreta de seis, dezesseis ou noventa milhões de membros alertados contra o terrorismo, o comunismo internacional e a subversão”. Assim, a população era incentivada a transmitir informações sob o temor de que, se quebrassem a corrente, se tornariam “vítimas da esquerda”. A “Clínica de Boatos” infiltrava informantes civis em sindicatos, empresas, universidades e associações de todos os tipos, gerando uma espécie de cooperação entre a população e o aparato repressivo.

O que era a Oban?
Criada em 1969, a Operação Bandeirante (Oban) é identificada pela historiadora Beatriz Kushnir (2004) e a socióloga Martha Huggins (1998) como fruto da cooperação entre o II Exército e a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo na capital paulista, mantida com financiamento privado, para garantir “a paz nos negócios” (Joffily, 2012, p.44). Tratava-se de uma estrutura clandestina e paramilitar, que centralizava as atividades de ação de repressão surgidas especialmente após 1968, ano de grandes mobilizações populares contra a ditadura, com o objetivo de
(…) coordenar as atividades das diversas organizações policiais e militares de segurança interna do estado e facilitar a coleta rápida de informações. Sua meta mais específica era “identificar, localizar e capturar grupos subversivos que operavam na Segunda Região Militar, especialmente em São Paulo, com o objetivo de destruí-los ou pelo menos, neutralizá-los”
(HUGGINS, 1998 P.175).
Considerada exitosa por sua atuação intensiva, a Oban abriu caminho para sua formalização dentro do Exército em setembro de 1970, sob a denominação Destacamento de Operação e Informação (DOI), subordinado ao Centro de Operações de Defesa Interna (Codi), que se multiplicou por outros oito estados e o Distrito Federal.
Informação operação Bandeirantes
Um exemplo de “fake news” – a desinformação – é a morte de Joaquim Alencar de Seixas. O operário paraense era militante do Movimento Revolucionário Tiradentes, foi um dos responsáveis pela morte – chamada pelos militantes de justiçamento – de Henning Boilesen, em 15/04/1971. O empresário dinamarquês, que presidia o Grupo Ultra no Brasil e era diretor da Federação das Indústrias/SP, a FIESP , era um dos principais defensores da Operação Bandeirante e atuava junto a outros empresários para incentivar a doação de recursos ao órgão clandestino.
Em 16 de abril de 1971, Joaquim e seu filho de 16 anos, Ivan Seixas, foram presos e levados ao DOI-Codi de São Paulo, onde foram torturados desde o momento da descida do veículo que os sequestrou. Fanny Seixas, esposa de Joaquim, e Iara e Ieda Seixas filhas do casal, também foram sequestradas e mantidas no DOI-Codi.
Em 17 de abril de 1971, a Folha da Tarde, um dos jornais do Grupo Folha, estampou em sua capa a manchete informando que Joaquim Seixas havia reagido a uma abordagem policial e foi morto em um tiroteio às 13h do dia 16 de abril na Avenida do Cursino, no bairro Ipiranga, São Paulo. Mas nesta data e horário, o militante do MRT e seu filho Ivan Seixas, de apenas 16 anos, estavam sendo torturados na sede do DOI-Codi em São Paulo. Joaquim foi morto no início da noite do dia 17/04/1971 em decorrência das torturas.

A certidão de óbito informava que Joaquim havia falecido devido a uma “hemorragia interna traumática”, com base no laudo de exame de corpo de delito, assinado pelos peritos Pérsio José Carneiro e Paulo Augusto de Rocha. O documento apontava a presença de escoriações por todo o corpo e sete perfurações por projéteis de arma de fogo.
Foi somente em 2015 que a família Seixas conquistou o direito de retificar a certidão de óbito de Joaquim, em que passou a constar como causa da morte “lesões perfurocontusas, provocadas por projéteis de arma de fogo, que causaram hemorragia interna traumática e lesões contusas, provocadas por espancamento, que causaram traumatismo craniano, abdominal e dorsal – tortura”.

Acesse o documento original completo
É possível estabelecer paralelo comparativo entre o modus operandi do DOI-Codi com as práticas atuais da extrema direita, com a difusão de boatos (Fake News), campanhas de medo e alertas por meio da imprensa tradicional (rádio, televisão e imprensa escrita), canais de vídeo on-line, Think Tanks, plataformas de streaming e redes sociais controladas por empresas multimilionárias. Tais práticas têm ameaçado a democracia em todo o mundo, exigindo cooperações internacionais para sua regulação.
(Morozov, 2018; Fisher, 2023; Queiroz, 2024).
Se no passado o funcionamento do Oban e do DOI-Codi dependia de financiamento privado para garantir a “paz nos negócios” (Joffily, 2012, p. 44), hoje são as Big Techs que lucram com a disseminação do medo e de uma ameaça fictícia. Evgeny Morozov (2018, p.7) argumenta que a tecnologia digital atual é “uma teia confusa de geopolítica, finanças globais e consumismo desenfreado” cuja lógica não se baseia na veracidade das mensagens disseminadas, mas em sua viralização, que gera benefícios econômicos cada vez maiores às empresas controladoras das redes sociais. De acordo com Morozov, “a verdade é aquilo que gera mais visualizações. Do ponto de vista das plataformas digitais, as Fake News são simplesmente notícias mais lucrativas” (Morozov, 2018, p. 11), cuja proliferação colocou a democracia em risco.
4 em cada 10
brasileiros
afirmam receber fake
news diariamente
Um dos sintomas dessa dinâmica é a permanente “luta contra o comunismo”, nos moldes das décadas de 1960 e 1970, que voltou a ganhar força no Brasil a partir de 2013, levando à radicalização de parte significativa da sociedade alimentada com informações e cadeias de mensagens, principalmente por meio do Facebook e do aplicativo WhatsApp. Theodor Adorno afirma que é uma estratégia de propaganda fascista a denúncia de um “comunismo mais ou menos imaginário, sem se preocupar em debater questões políticas ou econômicas reais” (Adorno, 2019, p. 476). É um efeito do que Marcelo Godoy observa como uma “necessidade de perceber na sociedade a sobrevivência e a continuidade dos velhos conflitos dos tempos da Guerra Fria” (2024, p. 19).

Mais informação sobre o anticomunismo
Como resultado do pânico disseminado, Jair Bolsonaro foi eleito, um declarado apoiador da ditadura e do comandante do DOI-Codi entre 1970 e 1974, Carlos Alberto Brilhante Ustra. Durante a sessão da Câmara dos Deputados em abril de 2016, na qual estava sendo decidido o impeachment da então presidente Dilma Rousseff – que foi detida e torturada no DOI-Codi -, Bolsonaro dedicou seu voto à “memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o terror de Dilma Rousseff”. Dois meses depois, o segundo livro de Ustra, A verdade sufocada, tornou-se o sexto livro de não ficção mais vendido de acordo com o ranking de um dos principais jornais do país, a Folha de São Paulo (Meirelles; Genestreti, 2016).

Referências bibliográficas
Carlos Fico. O grande irmão da Operação Brother Sam aos anos de chumbo: o governo dos Estados Unidos e a ditadura militar brasileira. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 2008
Conspiração americana contra o governo Goulart
Jorge Ferreira. Jango: uma biografia. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 2011
Tumulto marcou sessão que decretou vacância do cargo de Jango em 64.
Evgeny Morozov. Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política. São Paulo: Ubu, 2018
Ivson da Nóbrega Queiroz. Brasil, 2018: a importância do Parlamento e das Mídias Sociais na construção do discurso que venceu as eleições presidenciais. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2024.
Martha Huggins. Polícia e política: relações Estados Unidos América Latina. São Paulo: Ed. Cortez, 1998.
Max Fisher. A máquina do caos. Como as redes sociais reprogramam nossa mente e o mundo. São Paulo: Todavia, 2023.
Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPÊS)
Defensoria pública consegue correção do registro de óbito de homem morto no regime militar
Ponte. Pesquisa indica que Folha recorreu à desinformação em apoio à ditadura
Memórias da Ditadura. Memorial de Mortos e Desaparecidos Joaquim Alencar de Seixas
Memorial da Resistência. Ivan Akselrud de Seixas