A história da Ditadura Militar brasileira não é escrita somente com os documentos oficiais ou com os registros institucionais. Ela se escreve nos corpos, nas memórias e nas vozes dos sobreviventes do bárbaro aparelho repressivo do Estado. Entre estas vozes, a história de Denise Peres Crispim não emerge de forma isolada, mas sim como um testemunho coletivo — um relato que, a partir de suas especificidades, demonstra as estruturas sistemáticas de violência que marcaram com dor centenas de brasileiros durante a experiência ditatorial. Sua história marcada pela prisão, tortura e perda, torna-se reflexo de experiência compartilhada por tantos que passaram pelo DOI-Codi de São Paulo, instituição que operou através do conceito de “clandestinidade legalizada”.

Denise veio ao mundo de forma clandestina em 1949 já com um codinome: “Laura Santos”, para protegê-la da perseguição a seus pais, os militantes comunistas José Maria Crispim e Encarnación Lopez Peres. Seu pai foi soldado do Exército entre as décadas de 1920 e 1930, era advogado e foi deputado constituinte em 1946 por São Paulo pelo Partido Comunista Brasileiro, até seu mandato ser cassado em 1949 pela extinção forçada do partido pela Lei nº 211, de 07/01/1948. Sua mãe é Encarnación Lopez Peres militante operária. A cassação causou vulnerabilidade econômica à família, mas também muita luta. José Maria teve os direitos políticos cassados durante a ditadura e daí em diante, seus pais se tornaram militantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), organização para a qual seu irmão, o operário Joelson Peres Crispim, também ingressou. Joelson foi vítima de assassinato durante o regime militar em 22 de abril de 1970, a causa de sua morte é incerta devido a encobrimentos e noticias falsas que rodeiam o assassinato mas acredita-se que os principais envolvidos no caso são agentes do DOI-CODI/SP, comandados pelo capitão Coutinho (Francisco Antônio Coutinho e Silva). Seu corpo permanece desaparecido até o presente.
Aos 20 anos, Denise conheceu seu parceiro, Eduardo Leite, conhecido como Bacuri, foi um técnico em eletrônica e importante dirigente da Ação Libertadora Nacional (ALN) e fundador da Residência Democrática (REDE). A atuação política conjunta e a vida conjugal resultou na gravidez de Denise no início ano de 1970. Entretanto, em julho Denise foi presa pela Oban em frente à sua residência e levada para as instalações localizadas na Rua Tutóia, no bairro do Paraíso, em São Paulo. No local, ela foi submetida a horas de abusos físicos e psicológicos.Depois, foi transferida para o DOPS, onde foi novamente interrogada sob tortura, incluindo aquelas cometidas no Zoológico de São Paulo, para que fornecesse informações sobre seu companheiro Bacuri. Em seu testemunho, relata de maneira vívida as situações em que foi agredida, humilhada e encarcerada em uma cela semelhante a uma jaula de animais, tudo sob a supervisão e agressões de agentes públicos. “Segure o bacurizinho, ou ele vai acabar caindo”, disseram enquanto a golpeavam durante a gestação. Esse relato, longe de ser isolado, pinta um retrato comum entre diversos detidos políticos: a violência sistemática, a desumanização como estratégia, e o uso do corpo – o próprio e de seus entes queridos – para infundir medo.

O testemunho de Denise Crispim no documentário Repare Bem e junto à Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) explicita a natureza ambivalente do aparato repressivo. A narrativa revela uma dinâmica de ‘legalidade aparente’ tensionada por práticas de exceção, como o uso de veículos extraoficiais para traslados clandestinos e o emprego da venda como instrumento de desorientação espacial. Tais táticas são exemplificadas no episódio em que Denise foi retirada da residência de seus sogros sob coação. Além disso, a vigilância ostensiva e armada sofrida durante sua internação na Clínica Maternidade Militar – onde foi mantida como ‘isca’ para a captura de Bacuri – evidencia a instrumentalização da vida privada e do corpo feminino pelo Estado.

Fonte:https://web.arquivoestado.sp.gov.br/uploads/acervo/textual/deops/prontuarios/BR_SPAPESP_DEOPSOS000171.pdf (pg. 28 da pasta 0171)
No início de agosto de 1970, a Justiça Militar de São Paulo permitiu que Denise fosse transferida para um hospital diante do grave risco de interrupção da gestação; este hospital era a Clínica Maternidade Militar, onde foi mantida sob a vigilância ostensiva já que foi usada como ‘isca’ para a captura de Bacuri; esse episódio evidencia a instrumentalização da vida privada e do corpo feminino pelo Estado. Este ritual de intimidação – que variava desde encenações em gaiolas de animais até a apresentação de manchas de sangue nas paredes durante seu interrogatório em julho de 1970 – tinha a intenção de não apenas desmantelar o indivíduo, mas também de criar um ambiente de medo que silenciasse qualquer tipo de oposição. Assim, a tortura não era um ato ocasional, mas uma técnica de controle, repetida de maneira sistemática contra muitos corpos.
Em 21 de agosto de 1970, Bacuri foi preso pelo DOPS sob o comando do Delegado Sergio Paranhos Fleury. Levado ao Rio de Janeiro, foi sequestrado em um centro clandestino de tortura em São Conrado, Rio de Janeiro, e depois foi entregue ao Centro de Informações da Marinha – CENIMAR. Já debilitado e com dificuldades para andar, Bacuri foi levado ao DOI-Codi I Exército, no Rio de Janeiro, localizado na Rua Barão de Mesquita. Depois foi transferido novamente para São Paulo, na 41ª Delegacia de Polícia, na Vila Rica, Zona Leste de São Paulo, depois ao DOI-Codi/SP e ao DOPS/SP. Durante este período de permanência de Bacuri no DOPS, Denise evidencia o aspecto psicológico da repressão, uma “estrutura do medo” meticulosamente organizada. Ela relata ter sido levada com os olhos vendados para encontrar Bacuri, já em um estágio avançado de gestação e sob liberdade condicional, ouvindo sons de portas, passos e escadas, até parar diante da figura imponente e sarcástica de Sérgio Fleury. “Eu sou o famoso Fleury”, declarou ele, fazendo com que Denise sentisse um calafrio que, como ela mesma destaca, muitos prisioneiros experimentaram.
Eduardo Leite, o Bacuri, conseguiu suportar 109 dias de tortura antes de ser executado em 8 de dezembro de 1970 por seu algoz, Sérgio Fleury, delegado do DOPS. A difusão pública de sua morte foi a de que foi divulgada a notícia de que ele havia fugido durante uma operação policial para prender Joaquim Câmara Ferreira. Sua morte foi forjada como um tiroteio para ocultar as severas marcas de violência em seu corpo e evitar sua inclusão em trocas de prisioneiros políticos.
Em 11 de outubro, nasceu Eduarda Crispim Leite, o que garantiu a prisão domiciliar de Denise, que foi morar com os pais de Eduardo Leite, a esta altura, já preso e submetido às torturas; o nome do pai só foi incluído em sua certidão de nascimento em 2009. Denise tinha que se apresentar ao tribunal a cada 15 dias para assinar sua presença. Contudo, um veículo do DOPS a aguardava próximo de sua residência, a conduzia a interrogatórios informais e a ameaçava com a frase: “Você retornará aqui”. Sua cunhada, que a acompanhava, desempenhava o papel de seu “anjo da guarda” — a única testemunha que impedia seu total desaparecimento. Esse funcionamento cruel exemplifica como o Estado utilizava a legislação para dar uma aparência de legalidade a atividades ilícitas, criando uma área ambígua na qual a violência podia agir nas sombras do sistema institucional.
Mesmo após a promulgação da Lei de Anistia, a persistência de interrogatórios intimidatórios em 1982 demonstra a perenidade do monitoramento político, que transcendia os limites cronológicos do regime. Dentro do mesmo prédio na Rua Tutóia, coexistiam a 36ª Delegacia de Polícia, que era uma entidade legal, e o DOI-Codi, um centro de tortura e execuções sem julgamento. Essa combinação não era simplesmente uma situação geográfica; era a concretização de uma tática de encobrimento. O Estado mantinha uma aparência de legalidade — com detenções “documentadas”, questionários “oficiais” e até liberdade condicional — enquanto, nos subterrâneos, aconteciam sequestros, torturas e homicídios.


Ao compartilhar sua vivência, Denise Peres Crispim efetua um ato de resistência que vai além do nível pessoal. Em filmes documentais, declarações em tribunais e cartas, ela inscreve no agora as lembranças de um passado que muitos tentaram eliminar. Como mencionado no documentário Repare Bem, lidar com as consequências da ditadura militar brasileira a faz sentir-se desprestigiada em sua própria existência, pois carrega a responsabilidade de ter permanecido viva. Essa introspecção reflete o sentimento de uma geração que foi marcada pela perda e pela brutalidade. Seu relato atua como uma ligação entre a memória pessoal e a história comum, desafiando as narrativas oficiais que atenuam ou negam os horrores da ditadura. Ao compartilhar sua dor, ela também representa a aflição de muitos que não tiveram oportunidade de se manifestar.
Em 2022, Denise ingressou com denúncia na Corte Interamericana de Direitos Humanos contra o Brasil por falta de investigação e punição dos responsáveis pelas detenções arbitrárias e tortura cometidas contra Eduardo Leite e Denise Peres Crispim, e à execução extrajudicial de Bacuri, além de danos à Eduarda. Em 04/07/2025, o Brasil foi condenado após reconhecer a responsabilidade pela violação do direito à integridade pessoal de Denise Peres Crispim e de Eduarda Ditta Crispim Leite, em razão do sofrimento causado pela falta de sanção dos responsáveis pelos fatos.

Trabalhar com a história de Denise Peres Crispim foi uma experiência que me marcou profundamente. Quando comecei a atuar no Memorial Virtual, especialmente na organização do acervo do DOI-Codi, meu interesse começou pelo volume de documentos: a quantidade de interrogatórios na pasta que eu cuidava era realmente impressionante. Mas, à medida que minha pesquisa avançava, aqueles papéis deixaram de ser apenas registros burocráticos e passaram a ter uma face, uma história por trás deles. O contato direto com os documentos do acervo do Dops, junto com o impacto do documentário e do depoimento de Denise, revelou uma mulher de força incrível, mesmo em um momento de enorme vulnerabilidade.
O que me aproximou dela de forma mais pessoal foi a questão do tempo. Denise tinha a minha idade, 21 anos, quando foi presa. Na mesma fase da vida que estou agora, ela deu à luz a Eduarda e cuidou dela com toda a força, como uma verdadeira leoa, mesmo depois de ter sido traída por um Estado que deveria protegê-la — um Estado que matou seu parceiro e seu irmão, e exilou seus pais. Para mim, Denise se mostrou uma das mulheres mais fortes que já conheci. Sua história mostra como a militância a formou com muita coragem, mas também revela como as feridas daquele período ainda afetam quem ela é hoje, como mulher e mãe. É um relato que atravessa gerações, transformando documentos frios em um testemunho vivo de resistência que precisa ser mais conhecido com urgência.
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