Sou André Pereira Roquete, advogado e filho de Maria de Fátima Martins Pereira e Cláudio da Rocha Roquete.
Eles se conheceram enquanto cursavam o 4º ano de Medicina na Faculdade de Ciências Médicas da UERJ e entraram para o movimento estudantil contra a Ditadura, quando se tornaram alvos da repressão estatal.
Meu pai ingressou na militância em 1975, atuando no Comitê Estudantil do MEP (Movimento pela Emancipação do Proletariado) – uma organização política clandestina focada na classe operária como principal sujeito da revolução – e também prestando assistência política em núcleos da UERJ e UFF.

Minha mãe se destacou por sua combatividade em reivindicações estudantis e na organização do Encontro Nacional de Estudantes (ENE). Uma das curiosidades dos documentos que compartilho aqui é que o DOI do Rio de Janeiro alegou que ela usava o codinome “Fatinha”, quando na verdade era apenas um apelido carinhoso.

Em 23 de agosto de 1976, meu pai foi preso pela Polícia Militar de São Paulo, que informou que ele portava material de “natureza subversiva, inclusive um manuscrito a respeito da organização do Encontro Nacional dos Estudantes”, que aconteceu em 1977 com o objetivo de reconstruir a União Nacional dos Estudantes, organização banida pela Ditadura. Esse evento ficou marcado pela invasão da PUC-SP pela Polícia Militar e pela violência utilizada.

O ano de 1977 marcou o auge da repressão sobre o MEP.
Revisando meu acervo documental, localizei um Relatório Especial de Informações do Ministério do Exército/Comando do I Exército, datado de 28 de setembro de 1977, classificado à época como CONFIDENCIAL, que trata da repressão ao Movimento pela Emancipação do Proletariado (MEP). O documento descreve a estrutura da organização, os setores de atuação e a operação repressiva voltada à sua desarticulação, além de trazer fichas individuais de militantes indiciados. Meus pais estão neste dossiê, contendo informações pessoais e de atividades no movimento estudantil e no MEP (p.38 e 54)
Trata-se, portanto, de uma fonte primária produzida pelo próprio aparato repressivo, que pode ser relevante como material para novas pesquisas, especialmente no que diz respeito à documentação oficial da repressão ao movimento estudantil no Rio de Janeiro.
Em julho de 1977, meu pai foi preso na Rua Visconde de Pirajá, em Ipanema, e indiciado no Inquérito nº 07/77. Minha mãe foi detida um pouco depois, em agosto de 1977, no Méier, sendo mantida incomunicável inicialmente por 10 dias. Ao serem presos, ambos tinham apenas 23 anos e e foram submetidos a práticas de tortura no DOI-CODI da Rua Barão de Mesquita, na Tijuca, no Rio de Janeiro. Eles são uma memória viva repressão exercida contra estudantes universitários que ousaram se organizar politicamente durante o regime militar.
Quando foram transferidos para outras unidades, minha mãe participou ativamente na Greve de Fome iniciada em 24 de outubro de 1977 no Presídio Talavera Bruce, em Bangu, zona Oeste do Rio. O movimento denunciava as péssimas condições carcerárias e reivindicava a transferência das presas políticas para a o Presídio Frei Caneca – no bairro do Catumbi, região central da cidade – em função do isolamento pela distância da residência de suas famílias. Em solidariedade ao movimento, meu pai iniciou greve de fome enquanto estava detido no Instituto Penal Esmeraldino Bandeira, também em Bangu.
Após meses de cárcere, ambos obtiveram a revogação da prisão preventiva em novembro de 1977. Meu pai chegou a sofrer uma condenação posterior, em 1978, a três anos de prisão, sendo libertado definitivamente em fevereiro de 1979. Os dois foram beneficiados pela Lei de Anistia de 1979.
Após a prisão, minha mãe voltou para a faculdade e se formou: é médica psiquiatra. Já meu pai sofreu sequelas psicológicas como ataques de pânico e medo de encontrar os torturadores na rua. Ele não conseguiu voltar para faculdade naquele momento e abandonou a formação em Medicina. Posteriormente, se formou em Ciências da Computação na PUC-Rio.
Acredito que esse acervo familiar e oficial possa contribuir para as pesquisas sobre repressão política e movimentos de massa estudantis no final da década de 70. Por isso disponibilizo para todos o acesso aos dossiês de meus pais – Claudio e Maria de Fátima – , em que é possível consultar:
- Fichas Individuais e Dactiloscópicas: Registros minuciosos do DOPS com fotos de fichamento e características físicas.
- Indiciamento na Lei de Segurança Nacional: em função da atuação no Movimento pela Emancipação do Proletariado
- Prisão Preventiva: Documentos da 1ª Auditoria da Aeronáutica formalizando a custódia preventiva.
Meu intuito é, como filho, deixar registrado esse legado pois os nomes deles estão no livro Brasil, Nunca Mais junto com diversos outros relatos da tortura cometida nos porões da Ditadura.
Durante muito tempo, essa história foi difícil de ser revisitada no âmbito familiar.
Hoje, ao resgatar a trajetória de meus pais e acompanhar as iniciativas de reconhecimento e reparação em diferentes esferas do Estado, compreendo que esse registro também integra meu próprio processo de elaboração como filho e como alguém afetado, de forma transgeracional, pela repressão política.