No dia 04 de junho de 2025, me deparei pela primeira vez com uma imagem aérea do DOI-CODI de São Paulo durante uma palestra ministrada pela Doutora Deborah Neves, a convite do Professor Dr. Marcos Napolitano, no Departamento de História da USP. Naquele encontro, Deborah apresentou algumas etapas iniciais do processo de tombamento do DOI-CODI paulista e exibiu imagens aéreas que permitiam acompanhar a evolução das construções no terreno. Entre essas imagens, surgiu a fotografia produzida por Sérgio Sade. Deborah explicou que não possuía qualquer outra informação sobre aquele registro além do nome do fotógrafo, visível na lateral do recorte, e da legenda impressa abaixo: “O DOI-CODI nos anos 70: saída com tranca defeituosa”.

Movida pela busca incansável que Deborah e o Grupo de Trabalho DOI-CODI empreendem, decidi procurá-la ao final da palestra e dizer que eu tentaria descobrir o contexto de publicação daquela imagem. A suspeita inicial dela era de que teria sido veiculada entre as décadas de 1980 e 1990, já que a legenda fazia referência explícita aos “anos 70”, indicando uma década passada. A partir daquele momento, eu me encontrei numa situação conhecida de muitos historiadores: a obsessão por um fragmento quase sem informações, cuja trajetória precisava ser reconstruída a partir de indícios mínimos.
Neste texto, narro esse processo de busca, discuto o contexto das imagens localizadas e reflito sobre a importância desses fragmentos para compreender a história da Ditadura Militar no Brasil. Em especial, das violações de direitos humanos cometidas no período, que deixaram pouquíssimos registros acessíveis, contribuindo para lacunas documentais que também contam uma história.
Montar um quebra-cabeças
O DOI-CODI paulista, criado em 1969 e desativado no início da década de 1980, foi estruturado como um destacamento de informações e um centro de interrogatórios clandestinos, baseado em métodos sistemáticos de tortura. Pode não ser evidente, à primeira vista, por que existem tão poucos documentos materiais relativos ao órgão, considerando sua atuação pública sob a retórica da “teoria dos dois demônios”, ou seja, a versão de que existia um equilíbrio entre o Estado e as organizações armadas de esquerda. Contudo, trata-se de uma construção marcada por ausências deliberadas, apagamentos e ocultamentos que moldam narrativas oficiais. A escassez de vestígios físicos reforça discursos que procuram minimizar a violência de Estado, sustentando o mito da “ditabranda”, expressão utilizada por Marcos Napolitano para evidenciar a tentativa de apresentar a ditadura brasileira como moderada.
Nesse cenário, fotografias aéreas, plantas e mapas assumem um papel importante: são documentos que conseguem, eventualmente, escapar de tentativas de ocultação e auxiliar na construção de contrapontos. No caso das imagens aéreas, por exemplo, nos ajudam a montar uma cronologia da construção do DOI-CODI paulista, já que existe uma escassez documental em relação a esse lugar. Assim, a importância de encontrar o contexto de publicação da imagem de Sérgio Sade reside exatamente aí: localizar as condições de produção e circulação desses registros ajuda a compor um campo documental sobre uma estrutura que não mediu esforços para se manter invisível.
A única informação concreta de que eu dispunha inicialmente era o nome do fotógrafo. Assim, comecei por investigar sua trajetória profissional, através de entrevistas. Descobri que Sérgio Sade colaborava com a Veja desde sua fundação, em 1969, inicialmente como freelancer; mais tarde, foi contratado e chegou ao cargo de chefe da fotografia. Esse percurso profissional delimitou meu primeiro recorte: da criação da revista até o final da década de 1980. Ainda assim, restavam cerca de vinte anos de edições semanais, o que exigia a adição de mais filtros.
Ao mesmo tempo, mantive contato com a equipe da Veja, que respondeu pela primeira vez informando que a imagem pertenceria à edição 546, de 21 de fevereiro de 1979. A matéria intitulada “Descendo aos porões”, publicada em conjunto com “Um poder na sombra”, apresentava-se como a “primeira reportagem sobre o aparelho repressivo”, segundo a própria revista, e somava onze páginas. Os textos foram escritos por Antônio Carlos Fon, jornalista que havia passado pelas instalações do DOI-CODI devido à sua militância na Aliança Libertadora Nacional (ALN). Embora se tratasse de uma reportagem com elementos de denúncia, é importante situá-la dentro de seu tempo histórico e de seu contexto político-editorial. Estamos no início de 1979, às vésperas da Lei da Anistia, num momento em que o processo de abertura política encabeçado pelo governo Geisel ainda era disputado dentro das Forças Armadas. A Veja, por sua vez, assumia uma linha editorial mais conservadora em relação à ditadura e, naquele momento, possuía interlocução com Golbery do Couto e Silva, figura central do projeto de distensão “lenta, gradual e segura”.
É nesse enquadramento que a reportagem de Fon precisa ser lida. Apesar de ter sido escrita por um militante e sobrevivente do DOI-CODI, o texto circula dentro de uma disputa que envolvia, de um lado, o grupo próximo aos “castelistas”, associado a Geisel e Golbery, defensor de uma abertura controlada; e, de outro, militares contrários ao processo de redemocratização. Em função desse cenário, o alcance da denúncia poderia ser grande, afinal, era Veja, ainda a principal revista semanal do país, publicando imagens e descrições inéditas sobre o aparato repressivo, mas certos termos e enquadramentos precisavam ser manejados com cautela. Essa ambivalência aparece no esforço de desassociar Geisel das práticas de tortura, apresentando o processo de “desmonte” do DOI-CODI como iniciativa do governo, ao mesmo tempo em que expunha o funcionamento interno do órgão.
O próprio Fon, em entrevistas posteriores, confirmaria a dimensão da repercussão dessa matéria – que, posteriormente, ganharia uma versão estendida em livro, intitulada “Tortura”. Ele relataria que a publicação chamou a atenção internacional, em especial porque, naquele momento, o presidente dos Estados Unidos era Jimmy Carter, que se colocava como um defensor da democracia. Em meio a essa conjuntura, uma deputada do congresso estadunidense chegou a afirmar publicamente que seria necessário observar o que aconteceria com Fon e com sua obra após a publicação: se algo lhe ocorresse, seria a comprovação de que a promessa de redemocratização era apenas retórica. Contudo, mesmo adotando um tom moderado, “Descendo aos porões” desempenhou um papel importante: trouxe a público um conjunto de denúncias num momento particularmente sensível, quando se discutia a anistia ampla, geral e irrestrita.
Retornei à Deborah com essa descoberta, mas, passado o êxtase inicial, ela notou que não se tratava ainda do objeto da nossa busca. A fotografia exibida na palestra não era a mesma publicada em 1979. Embora semelhantes, e ambas assinadas por Sérgio Sade, tratavam-se de imagens distintas. Assim, recomecei a procura.

A busca no acervo físico
Decidi então consultar o acervo físico da Veja no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB/USP). Lá, recorri à ajuda da bibliotecária Silvana Bonifácio, a cito nominalmente pois depois de tantos dias folheando revistas, a própria Silvana não apenas se interessou em conhecer mais a história do DOI-CODI, mas também passou a olhar algumas edições durante o tempo livre com a finalidade de me auxiliar. Comemoramos juntas quando, posteriormente, encontrei a imagem publicada. Durante essa busca, identifiquei que o estilo gráfico da legenda presente no recorte só começava a aparecer nas revistas a partir de meados de 1984, o que permitiu restringir novamente o período de investigação.

A equipe da Veja, por sua vez, confirmou que a outra imagem enviada por mim, com a legenda embaixo, não constava nos registros da revista. Isso indicava que possivelmente jamais havia sido publicada ou que o sistema de catalogação não preservara sua informação. Sem recursos digitais de busca, restava insistir no retorno ao analógico. Nesse momento, tomei duas decisões paralelas: A primeira foi contatar a empresa do próprio Sérgio Sade, que hoje atua na área de fotografia comercial. Quem me respondeu foi André Sade, filho do fotógrafo, que se mostrou extremamente solícito e confirmou que as imagens haviam sido tiradas em 1979, mas que seu pai não sabia em qual contexto haviam sido utilizadas. A segunda decisão foi criar uma linha do tempo com eventos centrais da história da ditadura e da redemocratização a partir de 1979: efemérides do golpe, marcos políticos, publicações importantes – entre elas o livro Brasil: Nunca Mais – e outros acontecimentos que pudessem ter motivado reportagens retrospectivas. Essa estratégia, enfim, deu resultado.

A imagem tão procurada foi localizada na edição 967 da Veja, de 18 de março de 1987 – publicada uma semana após o lançamento de Rompendo o Silêncio, de Carlos Alberto Brilhante Ustra, comandante do DOI-CODI entre 1970 e 1974. O lançamento do livro por parte de Ustra surgiu como forma de responder a acusação de Bete Mendes, secretária da cultura de São Paulo naquele momento que, ao encontrar seu torturador no Uruguai servindo como adido do exército, escreveu uma carta ao presidente da época, José Sarney, indignada em vê-lo naquela posição. Algumas expressões chamam a atenção nessa reportagem, como o uso do advérbio “espetacularmente” para se referir a publicação do livro, ou os testemunhos publicados de sobreviventes que são denominados “livros de memória de terroristas”. Se a matéria de 1979 foi cautelosa, a reportagem de 1987 apresenta um tom marcadamente inclinado à versão de Ustra, chegando, inclusive, a citar que “são poucos, porém, os casos de ex-terroristas que o acusam de ter participado efetivamente das sessões de tortura” (p. 29) o que é uma afirmação, para dizer o mínimo, interessante, quando na mesma matéria é citada uma carta escrita ao próprio presidente acusando Ustra de ser um torturador.
Nesse contexto, a fotografia de Sérgio Sade aparece em um quadro intitulado “O que falta no livro do general”, que é uma tentativa – falha, diga-se de passagem – de apresentar um contraponto a versão de Ustra. O título já é sugestivo, embora, naquela época, Ustra ainda fosse coronel e estivesse concorrendo a promoção ao generalato apenas no fim de março. O quadro enumera dezessete mortes atribuídas ao DOI-CODI, contrapondo a versão oficial às investigações conduzidas por familiares e sobreviventes. A legenda “saída com tranca defeituosa” acompanha a imagem e produz efeitos interpretativos dúbios: pode funcionar como uma espécie de ironia, questionando essa suposta facilidade de se escapar das instalações; mas também parece reforçar versões oficiais de mortes decorrentes de supostas tentativas de fuga. Tal legenda, somada ao fato de a foto ter sido tirada em 1979 enquanto os casos citados datam de 1971 a 1973, revela deslocamentos narrativos que merecem atenção. Contudo, a impressão que fica ao finalizar a leitura da reportagem, é que a tentativa de crítica ao Ustra parece mais recair para a imagem dele como coronel, do que, de fato, o que deveria ser: Ustra como um perpetrador.

Entender o que é ser historiadora
Encontrar essa imagem, ou melhor, encontrar seu contexto, fez mais do que solucionar uma dúvida pontual. Reforçou minha convicção sobre o caminho da pesquisa histórica e iluminou os desafios específicos de trabalhar com a história do DOI-CODI. Quando Deborah me pediu que escrevesse sobre esse processo, inicialmente não compreendi sua importância; parecia uma descoberta mínima. Contudo, após visitar o antigo prédio do DOI-CODI com a presença dela e do Núcleo Memória, tornou-se evidente como pequenos fragmentos são essenciais para reconstruir a história de uma estrutura material que precisava ser invisível e, por isso, produziu poucas provas de sua existência e das atividades ali desenvolvidas .
Por fim, as fotografias aéreas do DOI-CODI paulista, feitas em 1979, formam uma cronologia visual que independe de textos, mas a busca pelo contexto de publicação, paradoxalmente, é necessária para compreender como essas imagens foram enquadradas e mobilizadas. Não se trata de contradição finalizar um texto sobre a busca pelo contexto de publicação da foto afirmando que ela é um fonte que independe de texto, mas de complementaridade. A imagem existe por si mesma, como documento; o texto permite entender como ela foi lida, manipulada ou instrumentalizada em determinado momento histórico, além de preencher lacunas de informações sobre a estrutura do local.